Desvarios
Mamãe pediu para meu irmão me telefonar. Ficou sabendo que escrevi um livro. E que tinha um exemplar na casa dela.
“Que livro, mamãe?”
“Sobre a Maria Bonita”.
Publiquei Maria Bonita em 2018, quando mamãe dava os primeiros sinais de confusão mental.
Mamãe nasceu em 30 de julho de 1938, dois dias depois da chacina de Angico. Vovó Alcinda, mãe de mamãe, tinha orgulho de ser de Mossoró (RN), cidade que botou pra correr o bando de Lampião.
“Tô doida pra ler”, ela me disse, animada, contando que mandaria fazer óculos novos para isso.
“Onde você mora, Adriana?”
“Em São Paulo, mamãe”.
“Vixi! Tá fazendo muito frio?”
“Não, mamãe, São Paulo não é mais como antigamente”.
“Quando você vem aqui?”
“Nas férias, mamãe”.
“Mas você volta para ficar?”



É dureza. Mas tem algo um pouco fascinante a respeito da perda da memória. Vivenciei com meu pai e agora com a minha mãe. Um assunto que merecia um filme do Herzog , isso da memória.